Escola Base: Falsas Memórias e Fake News espalhadas pela mídia
- ygoralexandrosam
- 13 de jan. de 2025
- 6 min de leitura

São Paulo, bairro da Aclimação, março de 1994.
A Escola de Educação Infantil Base, seus proprietários e funcionários, viveriam por meses, o inferno das fake news, acusações falsas propaladas de forma irresponsável pela mídia e o induzimento de falsas memórias em crianças de apenas 04 anos.
Tudo começou quando duas mães perceberam atitudes estranhas de seus filhos. De pronto, foram até a delegacia para relatar a suposta prática de um crime abjeto e execrável: abuso sexual de crianças de apenas quatro anos.
E quem eram os responsáveis? Os proprietários da escola, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, e que supostamente contava com a participação da professora Paula Milhim Alvarenga e de seu, à época, esposo, o motorista da kombi do colégio, Maurício Monteiro de Alvarenga.
Diante de acusações de tamanha gravidade, o delegado do caso, Edélcio Lemos assumiu a frente das investigações, conduziu as crianças supostamente abusadas ao Instituto Médico Legal para a realização de exames. Além disso, também obteve um mandado de busca e apreensão para o apartamento onde esses supostos abusos sexuais aconteciam.
O laudo médico foi inconclusivo. Lesões foram, de fato, encontradas, todavia, não se podia afirmar que eram resultado de abusos sexuais. Haviam inúmeras causas que poderiam explicar aquelas marcas. O mandado de busca e apreensão foi cumprido, no entanto, nada foi encontrado.
Sedentas por “Justiça”, as mães das crianças procuraram a mídia, indo diretamente até a maior rede de televisão do país, a Rede Globo.
Elas então relataram todo o caso de abuso sexual. Após isso, a Escola Base se tornou conhecida por todo o Brasil, tomando proporções nacionais instantaneamente, em uma era em que as informações circulavam em uma velocidade muito menor do que hoje em dia.
O Jornal Nacional realizou matérias jornalísticas narrando todo o caso, já proferindo a sua sentença, evidentemente, condenatória.
Matérias sensacionalistas dos mais diversos portais exploravam o caso ao máximo, vide a capa de jornal que ilustra o presente texto.
Os proprietários da escola tinham sua imagem execrada com manchetes tendenciosas e condenatórias. Até mesmo a sugestão da prática de orgias entre as crianças, de uso e consumo de drogas e da transmissão do vírus da AIDS foram veiculadas.
A notícia correu o país e foi explorada de forma irresponsável (senão criminosa) por parte dos meios de comunicação, encontrando no imaginário coletivo um terreno fértil para se alastrar, até porque, num país onde a cultura do medo é alimentada diariamente, a possibilidade de que nossos filhos estejam sendo vítimas de abuso sexual na escola é o ápice do terror. (Aury Lopes Jr., 2020)
Somando-se a tal panorama calamitoso, a própria autoridade policial, o primeiro responsável por salvaguardar os direitos de qualquer suspeito de prática criminosa, dava declarações estapafúrdias, irresponsáveis e sensacionalistas.
Por fim, a última pá sobre o caixão da presunção de inocência e de não culpabilidade foi jogada, com o depoimento das crianças que, aparentemente, haviam confirmado os supostos abusos.
Com essa cobertura dos veículos de mídia tão ampla, acrescidas de um comportamento inconsequente da autoridade policial, era necessária uma resposta firme por parte da “Justiça”. E como essa resposta deveria acontecer? Ora, por meio da prisão e condenação imediata dos envolvidos, esses supostos pedófilos.
Aliás, a essa altura, não havia mais um "suposto envolvimento", o que existia, com menos de 1 mês de investigação, era a certeza da culpa. A "sentença" dessas pessoas já havia sido proferida e era mostrada, todos os dias, de forma sensacionalista, pelos maiores veículos de "notícia e informação" do país.
"Condenados! Prendam esses Abusadores! Que apodreçam na cadeia! Que se faça JUSTIÇA!"
Imagino que essas foram algumas das incontáveis "palavras de ordem" utilizadas.
Contudo, a condenação e a prisão dos responsáveis era o mínimo que a sociedade e a imprensa esperavam. Seria preciso ir além. Mais do que estigmatizar, era imprescindível dizimar qualquer resquício de dignidade do ser humano daqueles criminosos desprezíveis!
A escola foi depredada indivíduos que ambicionavam ser pessoalmente responsáveis por destruir a vida de cada um desses bandidos.
Era um frenesi por "Justiça", em que era indispensável experimentar o gosto em causar desgraça na vida alheia, em que sentir o medo bem de perto incitado naqueles criminosos seria um prazer e, enfim, chegar ao ápice em que degustar uma vingança moralmente autorizada contra abusadores de crianças seria um deleite.
Portanto, era necessário, fundamental, imperioso, assumir o dever cívico indeclinável, de fazer "Justiça".
Sem dúvidas, havia um lugar especial no inferno reservado para monstros como os que eram pintados pela mídia.
Foi um verdadeiro massacre da reputação e imagem dos suspeitos. Não houve sequer chance de defesa. Para a maioria, um castigo mais do que justo para abusadores de crianças. Na verdade, uma punição branda perto dos atos que haviam cometido.
Só que todo esse anseio pela "Justiça" acabou deixando um detalhezinho de lado. Essas criaturas abjetas, delinquentes, facínoras da pior espécie, eram e sempre foram, na verdade, inocentes.
Em junho de 1994, apenas 03 meses após as denúncias, o delegado que conduzia a investigação foi afastado e o delegado Gérson de Carvalho representou pelo arquivamento do inquérito policial.
Repito: 03 meses após o início das investigações, o inquérito policial foi arquivado por falta de provas. Frise-se, 03 meses. Não 03 anos. Mas 03 meses.
Aquelas lesões atestadas pelo IML, eram provenientes de uma constipação intestinal, fato relatado, inclusive, pela mãe de um dos garotos e uma dentre as diversas possibilidades que o laudo trazia.
E os depoimentos das crianças? E as suas afirmações de que haviam sido, de fato, abusadas?
Na oitiva dessas crianças, como bem aponta Aury Lopes Jr. (2020), ocorreu uma “verdadeira indução”:
As perguntas eram fechadas e induziam as respostas, quase sempre dadas pela criança (recordemos, com 4 anos de idade) através de monossílabos (sim e não) ou, ainda, respostas que consistiam na mera repetição da própria pergunta. Naquele contexto, onde a indução era constante, e a pressão imensa, é elementar que as duas crianças sob holofote fantasiavam e também buscavam corresponder às expectativas criadas pelos adultos e pelo contexto. O caldo midiático criado e a desastrosa condução da investigação policial foram fundamentais para a inflação da imaginação das crianças e até das duas mães (sendo que uma delas era a principal fonte de tudo). A forma como foi conduzida a investigação policial (especialmente na oitiva das crianças envolvidas) serviu como um conjunto de exercícios imagéticos para alimentar as supostas vítimas. As consequências foram trágicas.
Como disse no meu texto de ontem, as falsas memórias podem decorrer de distorções que nosso cérebro faz por si só - inclusive narrei uma falsa memória que possuo em relação ao desenho Dragon Ball Z e ao efeito Mandela. Conquanto, as falsas memórias podem advir de sugestões dadas por terceiros, sejam eles os próprios familiares, na ânsia por obter respostas sobre fatos que não existiram ou, em casos mais extremos, por parte dos órgãos responsáveis pela persecução penal e do próprio Poder Judiciário.
E para piorar, o Caso da Escola Base, não é um episódio isolado.
Mas e o que aconteceu com as verdadeiras vítimas de todo esse circo de horrores? A sua inocência foi amplamente divulgada pela mídia? Indenizações vultuosas foram imediatamente pagas?
O que Vossas Excelências imaginam? É claro que não!
Os envolvidos (entenda, as vítimas) desenvolveram doenças relacionadas ao estresse e fobias sociais. Perderam seus empregos, tiveram seus negócios arruinados, o psicológico devastado e a vida completamente destruída.
As vítimas até moveram processos, em 1995, requerendo a indenização pelos danos sofridos contra os veículos de mídia e contra o Estado. No entanto, Maria Aparecida Shimada e Icushiro Shimada, faleceram em 2007 e 2014, respectivamente, antes mesmo da Justiça, que foi tão célere em permitir, outrora, a sua prévia condenação, pudesse encerrar definitivamente o processo e lhes fixar a indenização que tinham - e mereciam - por direito.
As outras vítimas desse absurdo (para dizer o mínimo), como a professora Paula e seu ex-esposo Maurício, sofrem até os dias de hoje com as consequências desse episódio catastrófico e funesto, inclusive se divorciando após os fatos.
O caso da escola Base é um exemplo de como a combinação de notícias falsas, espetacularização da imprensa e a insensatez e irresponsabilidade das autoridades são capazes de arruinar a vida de pessoas. Foi feito pela mídia e, consequentemente, pela população, com o aval daqueles que deveriam ser responsáveis por garantir que ninguém pode ser considerado culpado antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, um verdadeiro morticínio da imagem, da saúde e sanidade mental, dos recursos financeiros e com o que sobrou da vida de pessoas inocentes.





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